domingo, 15 de abril de 2018

Querida...



Sou teu por tudo, pelo tempo e espaço...
E, assim, a sina é sempre a que sorri...
Sou todo o tempo insano e sossegado
em louca mutação de amor infindo.
Sou nobre, alguém me disse, e já nem creio,
pois eu me curvo sempre que preciso,
a fim de me aninhar em teu abraço
e digo que sou menos do que dizem,
mas se é pra ser e ser só teu, o sou...

  

Quem poderá dizer, ó Poesia,
qual é o teu segredo de conquista?
A tua sedução, como se dá?
Tu pões algema branda e desejada
na mão de seres cheios de paixão
por essas aliadas, as palavras,
que mais parecem ter vontades próprias
e vão dizendo coisas do Universo...
E tu, rainha, algema-te ao poeta...
   


Teus feitos são tremendos, Poesia!
Bocage, a quem chamavam d’indomável,
foi um dos mais ilustres dos cativos
e servos mais fiéis desse teu reino
que descortina em letras a verdade
a fim de despertar plebeu e nobre
pro fato de que somos seres vivos
na justa caminhada de aprender
a conjugar o verbo humanidade...



Eu sei: te manifestas soberana
na música que, mãe de toda a Arte,
eleva lá pros cimos: Paraíso...
Quem pôde ouvir cantar Luísa Todi,
feliz, testemunhou pequena ave
em belo gorjear arrebatante!
Cantora para todas as centúrias...1
Querida! Eu sei que tu estavas nela
e com a tua destra a conduzias...

1 Como a definiu Antoine Reicha, em seu "Tratado da Melodia".



Em ti muitos fizeram boa Escola
sem mestres ou riqueza pra comprar
a tua essência, cara amiga minha!
Não foi assim com ele, o Calafate
que, sendo carpinteiro analfabeto,
fez as palavras serem quais imagens?
O velho Cantador setubalense
que dia e noite a ti se apegou
compondo o que chamamos Poesia...



Eu vejo a tua mão, querida minha,
na Arte de observar, documentar
os fatos para as gerações futuras
porque quem não conhece a própria origem
não tem como saber pra onde vai...
João Carlos de Almeida, o advogado,
foi firme, forte, qual forte Carvalho,
e célere em guardar bem a História,
e tu o impulsionavas, Poesia... 



Rainha minha, lembras o poeta
Sebastião Artur Cardoso Gama?
A quem tu inspiraste, protetora,
a fim de pleitear por nobre Causa
da Serra da Arrábida, que mãe,
protege belas praias e o Convento...
A Carta2 do poeta e professor,
que foi-se jovem, deu bom resultado
contigo por guarida, Poesia...


2Uma carta sua, enviada em agosto de 1947, para várias personalidades, a pedir a defesa da Serra da Arrábida, constituiu a motivação para a criação da LPN (Liga para a Protecção da Natureza), em 1948, a primeira associação ecologista portuguesa.





E por falar na bela Natureza -
aos olhos de quem vê com o cuidado
de não deixar passar cada detalhe -
a tua marca nela é indelével!
Quem nunca viu um belo pôr do Sol,
um quente amanhecer à beira mar,
as árvores floridas sob o vento,
as cãs de quem viveu e foi longevo
e não te viu, também, ó minha Dona?
  


Tu vês querida, como eu penso em ti?
Abrindo os olhos cedo, de manhã,
te sinto, qual olor doce no ar,
que vai se propagando ao derredor
e sem esforço fazes que eu consiga
deixar a dor de lado e labutar
num tento de fazer mundo melhor
a fim de que futuras gerações
não percam as pegadas que tu deixas...
   

Ao fim do dia, quando vem a noite,
meu corpo extenuado ainda te sente
e lembro com cuidado cada fato,
tentando recordar do que eu errei
pra por a minha a mente a questionar
acerca do que posso corrigir,
pois tu, minha mentora e conselheira,
qual luz que brilha mesmo em densas trevas,
cochichas: “ - Amanhã, tente outra vez”!



Nem quando o sono vem eu me desligo
da tórrida influência que tu tens
por sob esse meu eu que, sendo teu,
se deixa possuir em sonho bom
e vê repouso nesse teu regaço
que, tépido, apraz, pois me protege...
Fechando os olhos vejo-te melhor!
És como uma figura de mulher
com formas que acelera o coração...
  


Teus olhos me perscrutam toda a alma;
desnudam o meu ser, que te pertence,
sem medo ou traço algum de vão pudor
e deixa-se explorar completamente
sentindo a tua essência percorrer
a tez e cada parte do que sou!
Teus olhos são dois lumes de energia
que paralisa o tempo e me transporta
ao mítico Jardim de Shangri-lá!
   


Tu ris e vejo o Sol de muito perto...
Calor que não consome e muito apraz!
Um riso confiante e tão sincero
que dá melhor sentido à liberdade!
Teus lábios, duas fontes de carmim;
convites convincentes para o toque
que faz mexer meu corpo num tremor
capaz de sacudir o Universo,
moldando toda a vida a ti, Senhora...

  

A tez em ti é luz e tuas curvas
demonstram ser o termo perfeição
aquém do que tu és, do que inspiras,
pois não te prendem rótulos, modismos
ditados por tendências sazonais!
Tem muito a se apalpar teu conteúdo...
Tens seios que apontam para o céu
deveras desejáveis, ambrosia
capaz de fazer anjos salivarem...
  


Eu sinto as tuas mãos em minha nuca...
Carinho que não dá pra expressar!
Que puxa a mim pra mais perto de ti
dizendo bem baixinho: “- Vem provar”!
Não é convite! É ordem! Tu me tens.
Eu bebo dos teus lábios, Poesia!
Meu corpo se faz um ao corpo teu;
relâmpagos clareiam sem parar...
Ribombam mil trovões... Eis apogeu!


  
Assim é que engravidas quem escolhes!
E logo ao despertar sente na mente
desejo de se abrir e por pra fora
sementes que plantaste, minha amada!
Assim nascem pinturas magistrais
quais as de João Vaz e do Francisco
Augusto S. Flamengo de Setúbal
e tantos outros mestres dos pincéis!
Teus frutos são infindos, Poesia!



  
Não há limites para quem é teu!
Deslizas pelas mãos de quem esculpe
em barro, ferro, bronze, na madeira
ou em outra matéria que moldada
aos poucos se transforma com destreza
em formas atrativas ao olhar,
de modo que tu levas o escultor
ao nível de quem cria a perfeição
que fala sem dizer qualquer palavra!



Contigo não há belo, não há feio!
Ao menos não segundo esses padrões
que julgam sem levar em conta a Arte!
Querida minha dás razão à vida
e quem te reconhece é mais feliz!
Tem alma mais sensível; valoriza
o dom de quem faz coisas diferentes
e torna essa existência enriquecida
de cores, formas, cheiros e sabores... 


O queijo de Azeitão é maravilha!
Quem come fecha os olhos e te sente
em forma de sabor indescritível
que traz à tona um forte desejar
de dar pausa no tempo para sempre!
Talvez os que produzem nem percebam
que são, ó Poesia, servos teus
fazendo acontecer, de forma rara,
a Arte de comer com mais prazer...


Não tento imaginar como seria
se tu não existisses... É impossível!
Tu és a liga que faz suportável
a vida nesse mundo, assaz, injusto.
Tu és fragrância boa de inspirar;
és paz na temerária tempestade...
Metade em mim és tu e outra metade
anseia submeter-se ao teu domínio,
juntar meu eu a ti pelo infinito...